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15 de fevereiro de 2019

Resenha: Asiáticos Podres de Ricos, de Kevin Kwan

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Autor: Kevin Kwan
Editora: Record
490 Páginas

Sinopse: Quando Rachel Chu chega a Cingapura com o namorado para o casamento de seu melhor amigo, imaginava passar dias tranquilos com uma simpática família. Só que Nick não mencionou alguns detalhes, como o fato de sua família ter muito, muito dinheiro, que ela viajaria mais em jatinhos particulares do que de carro e que caminhar de mãos dadas com um dos solteiros mais ricos da Ásia era como ter um alvo nas costas. Logo, Rachel percebe que não será poupada das fofocas e intrigas. Isso sem falar na mãe de Nick, uma mulher com opiniões bem fortes sobre com quem o filho deve – ou não – se casar. Um passeio pelos cenários mais exclusivos do Extremo Oriente – das luxuosas coberturas de Xangai às ilhas particulares do mar da China Meridional –, Asiáticos Podres de Ricos é uma visão do jet set oriental por dentro. Com seu olhar satírico, Kevin Kwan traça um retrato engraçadíssimo do conflito entre os novos-ricos e as famílias tradicionais em seu romance de estreia, que já fez milhares de leitores chorarem de tanto rir no mundo todo. Compre o livro aqui.
Rachel Chu é uma professora universitária de Nova York que namora o charmoso Nicholas Young, também professor universitário. Os dois vivem um relacionamento quase perfeito que já caminha para os dois anos de namoro. É quando Nick é convidado para ser padrinho de casamento de seu melhor amigo Colin, que ele vê a oportunidade de levar a namorada para ir com ele para Cingapura e conhecer sua família, além de passar as férias aproveitando as maravilhas do país. Até ai nenhum problema, certo? Acontece que Nick nunca mencionou nada sobre sua família ou fato dele ser podre de rico: o herdeiro de uma das famílias mais tradicionais de Cingapura. Como Rachel, que vive uma vida simples em Nova York, vai lidar com toda essa situação?
- Não faço a menor ideia de quem essas pessoas são. Mas uma coisa eu posso garantir: essa gente é mais rica do que Deus.
Para começar, eu assisti primeiro o filme - e amei! - portanto, eu estava esperando algo parecido com filme, uma comédia romântica fofinha, que deixa você suspirando pelo protagonista maravilhoso, então confesso que levei um susto quando comecei a ler o livro. Logo de cara você é apresentado a duas árvores genealógicas sobre a família do Nick, que a princípio você pode pensar "Para que eu preciso disso?" ou até "Isso não deve ser muito importante". Acreditem, é importante sim. Por que? Porque nesse livro há muitos personagens, são muitos nomes e parentescos, que até você se acostumar com eles, você vai ficar um pouco perdido, de quem é quem e de quem é relacionado com quem, e portando a árvore genealógica ajuda muito nesse quesito.
Asiáticos Podres de Ricos
Outra coisa que me surpreendeu foi a narração que é feita em terceira pessoa (e é bem descritiva!), portanto cada capítulo tem o ponto de vista de um personagem diferente. Devido a isso, você pode demorar um pouco para achar um ritmo de leitura no começo, mas não desanime!! A leitura começa a ficar mais fluída e fácil do meio para o fim.
Asiáticos Podres de Ricos
Asiáticos Podres de Ricos, de Kevin Kwan | Foto: Nicole Oliveira
Eu gostei muito da ideia do livro, pois não é um assunto comum, o que instiga você a continuar a ler, já que é uma realidade totalmente diferente da nossa, meros mortais da classe trabalhadora. Tudo para eles é tão ao extremo que às vezes chega a ser ridículo.
Havia acabado de comprar um anel de diamante de 350 mil dólares de que não gostara tanto, uma pulseira de 28 mil dólares que lhe agravada bastante e um par de brincos de 784 mil dólares que a deixava parecida com a Pocahontas. Pela primeira vez em semanas, sentia-se incrível.
O autor vai a fundo em como essa sociedade é conservadora, tendo preconceito até com os seus. É uma cultura onde um casamento perfeito vale mais para uma mulher do que uma carreira de sucesso; e suportar as traições do seu marido não é nada se comparado ao escândalo que seria pedir um divórcio.
"Eu tenho sorte. Tenho muita sorte. Não seja tão burguesa. É só um casinho de nada. Não faça tempestade em copo d'água. Lembre-se, graça mesmo sob pressão. Graça mesmo sob pressão."
Quanto aos personagens, cada um tem sua particularidade, mas gostaria de destacar alguns que tiveram um maior impacto no livro: Rachel, que podemos considerar a protagonista, já que a maioria da trama gira em torno dela, é uma personagem bem carismática e divertida, os capítulos com o ponto de vista dela foram alguns dos meus preferidos, pois assim como nós ela ainda está descobrindo sobre como funciona essa vida de luxo; o Nick me encantou no começo por ele se preocupar bastante com a Rachel e não se importar muito com o dinheiro como sua família, mas o fato dele a ter lançado nesse meio sem nenhum aviso prévio e achar que tudo ficaria bem me incomodou bastante; Eleanor, mãe de Nick, é uma megera das grandes! Essa mulher não mede esforços para conseguir controlar a vida do filho, sendo capaz de ir bem baixo para conseguir o que quer e por mais que você a odeie, é instigante ver até onde ela vai para conservar o "pedigree" da família; Astrid, prima de Nick, tem uma trama muito atraente e que, por diversas vezes, roubou minha atenção da história "principal" de Rachel e Nick - ela é uma das personagens que mais se desenvolveu ao longo do livro.
Trinta segundos depois de saber o nome dela e onde morava eram o bastante para Eleanor pôr em ação seu algoritmo social e calcular precisamente o local que a mulher ocupava em sua própria constelação, com base em quem eram seus parentes, qual o seu valor liquido aproximado, a origem de sua fortuna e quais escândalos familiares teriam ocorrido nos últimos cinquenta anos.
Algo que foi difícil para me acostumar no começo foi o grande número de palavras e expressões em outros idiomas que o autor utiliza. Há notas de rodapé com a tradução/significado, no entanto é quase impossível você lembrar o que determinada palavra significa quando ela é usada novamente mais para frente no livro. Creio que teria sido interessante, além das notas de rodapés, se houvesse um glossário no final do livro para você poder consultar os significados de maneira mais rápida e prática. Então se você não tem uma boa memória como eu, sugiro que você marque o significado quando aparecer alguma expressão que você perceba que será recorrente no decorrer da história, assim você não perderá tempo procurando o significado na internet ou nas páginas anteriores do livro.
- Dá para acreditar? Alamak, a filha de uma mãe divorciada de uma família ulu sem nome nenhum! Eu vou tiao lau!
Asiáticos Podres de Ricos é um livro com um enredo muito interessante e divertido, que demanda um pouco de paciência no começo, mas que vale a pena a leitura. Estou animada para saber o que acontecerá com os personagens no segundo livro, Namorada Podre de Rica, que será lançado esse mês pela editora Record.

Foca na Leitura! 

8 de fevereiro de 2019

Resenha: O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini

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Autor: Khaled Hosseini
Editora: Nova Fronteira 
365 Páginas

Sinopse: O Caçador de Pipas é considerado um dos maiores sucessos da literatura mundial dos últimos tempos. Este romance conta a história da amizade de Amir e Hassan, dois meninos quase da mesma idade, que vivem vidas muito diferentes no Afeganistão da década de 1970. Amir é rico e bem-nascido, um pouco covarde, e sempre em busca da aprovação de seu próprio pai. Hassan, que não sabe ler nem escrever, é conhecido por coragem e bondade. Os dois, no entanto, são loucos por histórias antigas de grandes guerreiros, filmes de caubói americanos e pipas. E é justamente durante um campeonato de pipas, no inverno de 1975, que Hassan dá a Amir a chance de ser um grande homem, mas ele não enxerga sua redenção. Após desperdiçar a última chance, Amir vai para os Estados Unidos, fugindo da invasão soviética ao Afeganistão, mas vinte anos depois Hassan e a pipa azul o fazem voltar à sua terra natal para acertar contas com o passado. Compre o livro aqui.
"Por você, faria isso mil vezes!". "Por você, faria isso mil vezes!". Essa frase ficou ecoando na minha cabeça muitas horas depois de eu ter terminado O Caçador de Pipas e até no dia seguinte. Por quantas pessoas você faria algo mil vezes ou, por quais pessoas você faria algo mil vezes? 
Leia também: Resenha: Maus - A História de um Sobrevivente, de Art Spiegelman
Hassan pegaria a última pipa azul do glorioso campeonato de pipas que Amir, seu melhor amigo, venceu. Afinal, os dois são praticamente irmãos: brincam juntos, sobem em árvores juntos, vão comprar comida juntos, conversam bastante... Mas, como nem tudo são flores, também há algo que os separa: os dois moram em Cabul, no Afeganistão, mas são de etnias diferentes. Enquanto Amir é um pashtun, rico, bem-nascido e com escolaridade boa, Hassan é só um hazara pobre e simples que não sabe ler nem escrever.
Ao mesmo tempo, Hassan é sincero, intuitivo e corajoso, enquanto Amir é covarde, muito exigente consigo mesmo e está sempre procurando a atenção e aprovação do pai, que parece muito mais preferir Hassan.  

Mas, logo depois do campeonato de pipas, algo acontece e muda para sempre a relação dos dois. De uma hora para outra, Amir fica grosseiro, estúpido, ingrato e cruel com Hassan, que não sabe mais o que fazer para poder voltar a brincar com o amigo. A invasão soviética ao Afeganistão também não ajuda em nada e faz com que o Amir e o pai achem uma oportunidade de se mudarem para os Estados Unidos, separando de vez a relação dos dois. 

Entretanto, o passado sempre nos cobra novas atitudes e Amir, muitos anos depois, recebe uma ligação e se vê obrigado a voltar à sua terra natal para rever suas contas, pois sempre "há um jeito de ser bom de novo". Porém, quando isso acontece, o pais já está devastado pelo governo do Talibã, que quer "purificar" o povo. Mesmo em meio há tantas mudanças, Amir encontra formas de fazer o melhor que pode com o que ainda tem. 
"Não é verdade o que dizem a respeito do passado, essa história de que podemos enterrá-lo. Porque, de um jeito ou de outro, ele sempre consegue escapar". - Pág. 09.
O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini | Foto: Luiza Lamas
De uns tempos para cá, percebi uma certa inclinação minha em gostar mais dos personagens coadjuvantes do que do principal e com esse livro não foi diferente. Nossa, como eu queria abraçar Hassan o tempo inteiro enquanto lia a história e dizer que em algum momento a vida iria melhorar! Falar que Amir é cruel com ele eu acho até pouco, apesar de os dois serem amigos. De vez em quando, o menino lê para Hassan, mas zomba dele quando pergunta sobre uma palavra nova e desafia a sua lealdade o tempo inteiro, questionando, por exemplo, se Hassan comeria cocô por ele. 

Durante a história, somos convidados a acompanhar toda a vida de Amir nos Estados Unidos e esse foi o meu único porém com a história. Para mim, essa parte ficou um tanto quanto extensa e achei que em alguns momentos ela poderia ter sido reduzida. Mesmo assim, isso de maneira nenhuma é algo que te faz cansar da história. 

Aliás, mesmo com tantas reviravoltas, Khaled soube costurar e amarrar a história de um jeito maravilhoso. Eu ficava o tempo todo entre "não quero ler o livro porque estou com medo do que vai acontecer com os personagens" e "meu deus, preciso continuar a ler, porque quero saber o que acontece depois". Quando o clímax aconteceu, não consegui mais parar de ler. 

Apesar de o pano de fundo da narrativa ser conflitos políticos, sociais e guerra, saiba que falar sobre esse assunto não é, de longe, o propósito da história. O Caçador de Pipas é sobre culpa, amor, perdão e, acima de tudo, redenção: sobre fazer o melhor que se pode com o que ainda se tem, perdoar aos outros pelos erros e, sobretudo, perdoar a si mesmo. 
"Existe apenas um pecado, um só. E esse pecado é roubar. Qualquer outro é simplesmente uma variação do roubo. Quando você mata um homem, está roubando uma vida. Está roubando da esposa o direito de ter um marido, roubando dos filhos um pai. Quando mente, está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando trapaceia, está roubando o direito à justiça". - Pág. 25 e 26. 
Um beijo e foca na leitura! 

1 de fevereiro de 2019

Resenha: Mãe em Construção, de Lu Menezes

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Mãe em Construção, de Lu MenezesAutora: Lu Menezes
Editora: Simonsen
160 Páginas


Sinopse: O inesperado sempre acontece: Gabi, uma workaholic assumida, é surpreendida por uma gravidez não planejada - situação que põe em frangalhos sua vidinha autocentrada. É hora de lidar com uma nova dinâmica familiar, que envolve um "namorido" dependente e pueril, uma sogra pestilenta, cunhadas manipuladoras e um universo paralelo regido pelas leis arbitrárias da maternidade. Como se não bastasse, ainda há os três filhos e a rotina de empresária, que ela toca entre tarefas escolares, viroses, entregas de obra e algum sexo eventual, quando Deus dá um refresquinho.
Prepare-se para gargalhar e se identificar com a vida de Gabi - que também é a nossa vida, pode ter certeza.
Mãe em Construção é um romance nacional muito divertido e descreve a rotina conturbada e maluca da arquiteta Gabriela, uma mulher independente e vidrada em trabalho que descobre uma gravidez não planejada com o namorado Zé que, de uma hora para outra, está cada vez mais frequentando a casa dela, levando seus pertences para lá e ocupando um espaço que não é seu. 
Leia também: Resenha: Vidas Muito Boas, de J.K. Rowling

Como lidar com esse choque de realidade? Afinal, Gabi não queria filhos, muito menos a interferência do agora "namorido" em sua vida. Além disso, ela também não sabe nada sobre maternidade e ainda tem que lidar com as opiniões e interferências da família de ambas as partes (sogra e cunhada) sobre como ela deve se portar como mãe e o que deve fazer. 

Na obra, você acompanha como Gabriela lidou com o primeiro filho, Pedro, e com os outros dois que vieram depois. Descobre, por meio de uma linguagem divertida e única que a autora Lu Menezes conseguiu colocar no livro, como se adaptou ao fato de trabalhar muito, ser mãe e ter como companheiro uma pessoa extremamente folgada. E claro, como ela se deu conta de que no final, mesmo que tudo não aconteça como planejamos durante o crescimento das crianças, vale a pena passar por trancos e barrancos, pois saímos deles sempre melhores. 
Mãe em Construção, de Lu Menezes
Mãe em Construção, de Lu Menezes | Foto: Luiza Lamas
O primeiro ponto que eu gostaria de observar sobre esse livro é a grande sacada do nome. Gabriela, ao mesmo tempo que é uma arquiteta, é uma mãe em construção. Segundo, que personalidade incrível a dessa mulher. Muito resiliente, está pronta para atender a todos o tempo inteiro (mesmo que isso lhe dê muita raiva e vários períodos de desabafo).  

Agora, a verdade é que o mesmo não pode se dizer do Zé, o "namorido" dela. É certo que ele a ouve bastante e a compreende, mas não ajuda em quase nada na rotina maternal, escolar e de crescimento dos filhos (o que é de se esperar e de se obrigar de todo pai que se preze). 

Para mim, a virada do livro aconteceu (e aí eu soube que realmente achara ele bom), quando o filho mais velho começa a namorar e Gabriela passa a sentir muito ciúmes da quase nora, a ponto de competir com ela em quem verá ele primeiro, agora que está fazendo faculdade nos Estados Unidos. Foi nesse momento que deu para perceber como a personalidade da mãe foi se transformando ao longo do livro, já que no começo não queria ter filhos e, depois não quer dividi-los com ninguém. 

Recomendo o livro para aqueles que estão à procura de uma leitura leve e divertida e para aquelas que são (ou pretendem ser) mães. Com certeza, em algum momento, você vai se identificar com a personagem principal da história. 

24 de julho de 2018

Resenha de HQ: Maus - A História de um Sobrevivente, de Art Spiegelman

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Autor: Art Spiegelman
Editora: Quadrinhos na Cia. (Companhia das Letras)
296 Páginas 

Sinopse: Maus ("rato", em alemão) é a história de Vladek Spiegelman, judeu polonês que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, narrada por ele próprio ao filho Art. O livro é considerado um clássico contemporâneo das histórias em quadrinhos. Foi publicado em duas partes, a primeira em 1986 e a segunda em 1991. No ano seguinte, o livro ganhou o prestigioso Prêmio Pulitzer de literatura. A obra é um sucesso estrondoso de público e de crítica. Desde que foi lançada, tem sido objeto de estudos e análises de especialistas de diversas áreas - história, literatura, artes e psicologia. Em nova tradução, o livro é agora relançado com as duas partes reunidas num só volume. 
Nas tiras, os judeus são desenhados como ratos e os nazistas ganham feições de gatos; poloneses não-judeus são porcos e americanos, cachorros. Esse recurso, aliado à ausência de cor dos quadrinhos, reflete o espírito do livro: trata-se de um relato incisivo e perturbador, que evidencia a brutalidade da catástrofe do Holocausto. 
Spiegelman, porém, evita o sentimentalismo e interrompe algumas vezes a narrativa para dar espaço a dúvidas e inquietações. É implacável com o protagonista, seu próprio pai, retratado como valoroso e destemido, mas também como sovina, racista e mesquinho. De vários pontos de vista, uma obra sem equivalente no universo dos quadrinhos e um relato histórico de valor inestimável. 

"Maus é um livro que ninguém consegue largar. Quando os dois ratos falam de amor, você se emociona; quando eles sofrem, você chora." - Umberto Eco. 

"Um triunfo modesto, emocionante e simples - impossível descrevê-lo com precisão. Impossível realizá-lo em qualquer outro meio que não os quadrinhos." - Washington Post. 

"Uma história épica contada em minúsculos desenhos." - New York Times. 

"Uma obra de arte brutalmente tocante." - Boston Globe. Compre o livro aqui.
Maus - A História de um Sobrevivente conta a história de Vladek Spiegelman, sobrevivente judeu polonês do Holocausto, que passou pelos campos de concentração de Auschwitz (Polônia) e Dachau (Alemanha). O relato é feito pelo próprio pai e desenvolvido pelo filho, Art Spiegelman, em uma HQ de traços fortes e escuros, assim como foi esse período sombrio e horroroso da história do mundo. Na narrativa, judeus são retratados e desenhados como ratos (maus em alemão, daí o nome da HQ), alemães como gatos, poloneses não-judeus como porcos e americanos como cachorros. 

A história mescla entre momentos do passado e presente e começa com o filho de Vladek tentando convencer o pai a falar sobre tudo o que viveu. No início, descobrimos que a família da ex-esposa de Vladek (e mãe de Art) era rica, por isso, a fome e miséria demoraram um pouco a chegar para eles. Mas, aos poucos, todos percebem que judeus estavam sendo cada vez mais reprimidos e as condições pioram muito quando eles são obrigados a irem viver em guetos e depois são mandados para Auschwitz. 

Maus, de Art Spiegelman | Foto: Luiza Lamas
Particularmente, me interesso muito pela temática da 2ª Guerra Mundial e do Holocausto, então já tive contato com outras obras sobre o assunto, como O Menino do Pijama Listrado (resenha aqui), O Diário de Anne Frank (resenha aqui) e o que mais me impactou até o momento, O Menino da Lista de Schindler (resenha aqui), então, o tema em si não foi novidade para mim (e acredito que não seja para muita gente). O diferencial que reconheci em Maus foi a forma que o autor escolheu para contar a história. 

A alternância entre passado e presente permitiu que o leitor conhecesse um pouco mais sobre a personalidade de cada personagem e como eles lidavam com os conflitos sociais e familiares que surgiam. O mais extraordinário é que Art não excluiu suas angústias de escritor e de filho ao desenvolver a obra. Em um dado momento, ele comenta com a esposa que se acha incapaz de continuar a escrever Maus, porque nunca conseguirá entender como viver durante o Holocausto. 

Ao mesmo tempo, não deixa de fora a raiva e rancor que sente pelo pai (durante a HQ inteira dá para perceber que Art tinha relações muito melhores com a mãe) e isso fica explícito em uma cena em que Vladek quer devolver uma caixa de cereal aberta ao mercado, porque não quer jogar a comida fora (consequências trazidas pela guerra, em que viveu na miséria). 


Maus, de Art Spiegelman | Pág. 238
Outra parte interessante retratada por Art acontece no momento presente, depois da guerra, quando um rapaz negro questiona se pode receber uma carona e Vladek fica espantado e muito enraivecido porque o filho e a nora aceitaram o pedido, justamente porque o menino era negro e eles não deveriam se misturar. Quer dizer, mesmo Vladek tendo sofrido nas mãos dos alemães por ser judeu, ele não consegue enxergar a forma como está sendo racista e incoerente. 

Maus - A História de um Sobrevivente foi vencedora do prêmio Pulitzer (um dos mais conceituados no jornalismo e na literatura), no ano de 1992, na categoria "Prêmio Especial Pulitzer", inaugurada pela própria narrativa. Até hoje, nenhuma outra história em quadrinhos ganhou o prêmio. 

Há uma outra obra também escrita por Art Spiegelman chamada MetaMaus, em que o autor detalha a criação da narrativa de Maus e disponibiliza ilustrações, entrevistas, notas e esboços para complementar o que é retratado na HQ. O livro não foi traduzido para o português.

Um beijo e foca na leitura!

14 de julho de 2018

Resenha: Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

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Autor: Ray Bradbury
Editora: Editora Globo
216 Páginas

Sinopse: A obra de Bradbury descreve um governo totalitário, num futuro incerto mas próximo, que proíbe qualquer livro ou tipo de leitura, prevendo que o povo possa ficar instruído e se rebelar contra o status quo. Tudo é controlado e as pessoas só têm conhecimento dos fatos por aparelhos de TVs instaladas em suas casas ou em praças ao ar livre. O livro conta a história de Guy Montag, que no início tem prazer com sua profissão de bombeiro, cuja função nessa sociedade imune a incêndios é queimar livros e tudo que diga respeito à leitura. Quando Montag conhece Clarisse McClellan, uma menina de dezesseis anos que reflete sobre o mundo à sua volta e que o instiga a fazer o mesmo, ele percebe o quanto tem sido infeliz no seu relacionamento com a esposa, Mildred. Ele passa a se sentir incomodado com sua profissão e descontente com a autoridade e com os cidadãos. A partir daí, o protagonista tenta mudar a sociedade e encontrar sua felicidade.
Fahrenheit 451 é um clássico da ficção científica escrito em 1953 e descreve o cotidiano de uma sociedade que proíbe o acúmulo e manuseio de livros em casa ou bibliotecas, porque eles trazem angústia e medo, ao invés de serem instrumento de diversão e entretenimento. Nesta organização social, os bombeiros não são mais responsáveis por apagar incêndios, mas provocá-los, queimando coleções de obras de pessoas comuns que são denunciadas ao governo. 

Um destes bombeiros é Guy Montag, marido de Mildred, uma mulher que vive tomando muitos remédios e adora assistir à programas de lazer em três telões instalados na casa deles. O homem gosta muito de queimar livros e os acha inúteis, até o dia em que conhece Clarisse McClellan, sua vizinha de dezesseis anos que frequenta o psiquiatra por adorar conversar e fazer perguntas consideradas inoportunas, como questionar se Montag é feliz ou se ele está apaixonado. 
"Dizem que sou antissocial. Não me misturo. É tão estranho. Na verdade, eu sou muito social. Tudo depende do que você entende por social, não é? Social para mim significa conversar com você sobre coisas como esta. - Ela chocalhou algumas castanhas que haviam caído da árvore do jardim da frente. - Ou falar sobre quanto o mundo é estranho. É agradável estar com as pessoas. Mas não vejo o que há de social em juntar um grupo de pessoas e depois não deixá-las falar, você não acha? Uma hora de aula pela tevê, uma hora jogando basquete ou beisebol ou correndo, outra hora transcrevendo história ou pintando quadros e mais esportes, mas, sabe nunca fazemos perguntas: pelo menos a maioria não faz; eles apenas passam as respostas para você, pim, pim, pim, e nós, sentados ali, assistindo a mais quatro horas de filmes educativos. Isso para mim não é nada social." - Págs. 51/52 
A partir daquele dia, Montag passa a se encontrar regularmente com Clarisse e acompanhá-la de volta para casa. Aos poucos, a menina conquista o bombeiro com seu jeito de ser e pensar e, por causa disso, ele começa a questionar o trabalho que realiza como bombeiro e também o papel que exerce na sociedade. 

As dúvidas de Montag se intensificam quando ele comparece à casa de uma senhora para queimar os livros dela e a idosa prefere morrer junto às obras do que se salvar. Naquele momento, antes de deixar o local, o bombeiro esconde no casaco uns dos livros ao invés de incendiá-lo e, a partir dali, começa a pensar e planejar maneiras de driblar o governo totalitário em que vive. 


Fahrenheit 451, Ray Bradbury | Foto: Luiza Lamas
Uma das características que considerei mais interessante na narrativa de Fahrenheit 451 é que a ambientação dela se passa num planeta comum, numa cidade comum e que a história não precisou de grandes aparatos tecnológicos ou mudanças drásticas e mirabolantes para que fosse futurística. A graça da narrativa é perceber que o que mudou foi o comportamento das pessoas, cada vez mais inseridas na dinâmica da sociedade de massa, da indústria cultural e do consumo, uma forma de totalitarismo sutil. 

"Lembre-se, os bombeiros raramente são necessários. O próprio público deixou de ler por decisão própria. Vocês, bombeiros, de vez em quando garantem um circo em volta do qual multidões se juntam para ver a bela chama de prédios incendiados, mas, na verdade, é um espetáculo secundário, e dificilmente necessário para manter a ordem. São muito poucos os que ainda querem ser rebeldes." - Pág. 114/115. 

Há, inclusive, uma passagem no livro que nos mostra que a ambientação da história se passa mais ou menos no nosso presente, pois um personagem comenta: "Desde 1990, já fizemos e vencemos duas guerras atômicas!". Achei assustador perceber como algumas das ações dos personagens se parecem tanto com o que vivemos hoje. Por exemplo, estar sempre conectado. Atualmente, fazemos uso de computadores, celulares e diversos outros dispositivos móveis. Em Fahrenheit 451, quem têm esse papel são a televisão, que fica ligada praticamente 24h (é a que comentei que a esposa de Montag adora assistir) e escutas nos ouvidos, que recriam realidades melhoradas e mais felizes. 
"Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com 'fatos' que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente 'brilhantes' quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia." - Pág. 86/87. 
Me distanciando um pouco da estrutura, a personagem que mais me cativou foi Clarisse. Acho que o autor a construiu de uma forma muito simples, mas ela influencia os pensamentos e decisões de Guy Montag até o fim. Assim como a menina deixou uma marca no bombeiro, ela também deixa em nós, leitores. Às, vezes, eu queria pegá-la e guardá-la num potinho por ser tão inteligente. 

Também posso acrescentar que a narrativa não é arrastada. O autor nos apresenta o conflito e já se preocupa em resolvê-lo, o que foi um ponto muito positivo para mim (quero dizer que Montag não perde tempo sofrendo por causa da realidade em que vive, mas assim que a descobre, já passa a buscar soluções para transformá-la ou, no mínimo, deixar uma marca). 

Por fim, queria deixar registrado que há uma adaptação da obra para o cinema filmada em 1966 por François Truffaut. Vejam o trailer legendado abaixo:


E também outra adaptação, lançada pela HBO em maio deste ano, estrelada por Michael B. Jordan. Vejam o trailer legendado: 


Eu ainda não assisti nenhuma das duas versões, vocês já? 

Um beijo e foca na leitura!

9 de julho de 2018

Resenha: A Princesa da Lapa, de Danilo Barbosa

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Autor: Danilo Barbosa 
Editora: Universo dos Livros 
304 Páginas 

Sinopse: "Há tempos, entre os postes brilhantes e solitários da Lapa, houve um castelo feito de amores e ilusões perdidas. Nele, entre cortinas e brocados, existiu uma bela mulher, prisioneira de sentimentos perdidos e marcada pelo desejo dos homens. Uma mulher inesquecível, que foi chamada e ovacionada como A Princesa da Lapa."
Jonas é um jovem escritor capaz de escrever as mais belas histórias de amor, mas não de vivenciá-las. Por ter sido abandonado por aquela que considerava a mulher da sua vida, ele não acredita mais em finais felizes. Até que, em uma noite, uma misteriosa senhora o encontra, disposta a lhe contar a sua história... 
A partir do momento em que a fantástica personagem começa a se revelar ao cético criador de histórias, um novo conto de fadas se revela aos olhos dos leitores, mostrando um mundo de paixões vorazes, sensualidade, poderes supremos e a eterna luta do bem contra o mal. Sejam bem-vindos à incrível e instigante história daquela que ficou conhecida para sempre como A Princesa da Lapa. Compre o livro aqui.
Em A Princesa da Lapa, Jonas é um escritor de romances que acabou de levar um fora da namorada. Ele tenta correr atrás dela para entender o motivo de de repente a moça ter desistido dele, mas ela não está nem aí. Ao mesmo tempo, o rapaz está sendo pressionado por seu editor, que deseja que Jonas escreva um novo livro logo. 

Cansado e decidido a esfriar a cabeça, o jovem sai a noite em busca de inspirações, mas está com os pensamentos tão perdidos que se distrai e é atropelado. A dona do carro é Larissa, uma senhora que reconhece o escritor e o leva para casa, porque precisa que alguém conte a história dela. Dada a proposta, Jonas hesita, mas no final, aceita ouvi-la. 

No passado, Larissa era conhecida como R e foi deixada ainda bebê na porta de um bordel do Rio de Janeiro, conhecido como Casa dos Prazeres. No local, era muito bem tratada por Mama Mercedes (que R considerava como mãe) e por todas as prostitutas que faziam dali um local de trabalho. O cabelo loiro, bonito e enorme de R encantava a todas e fazia com que a menina fosse uma inspiração a ser seguida.

Porém, um pouco antes de ter a primeira menstruação, R sofreu um trauma dentro do bordel (que se eu contar aqui será um spoiler) e, com isso, percebeu que todo o carinho que recebia era mentira e apenas um disfarce para tudo o que estava por vir. A partir daquele momento a menina também passou a desacreditar no amor. 

Assim, quando finalmente menstruou, ela mesma se apresentou a Mama Mercedes para saber como seria o trabalho a partir daquele momento. Ali, o cabelo da garota se transformou em vermelho vivo, um ruivo brilhante que encantava a todos os homens e fazia com que a garota fosse extremamente desejada. Ficou decidido então que R seria a garota mais cara da Casa dos Prazeres e teria apenas um cliente por noite. 

Um deles, que R foi conhecer tempos depois de se tornar prostituta, era Lucas, filho de um poderoso Marechal e dono de muito dinheiro. No início, R achou que o garoto seria um simples cliente que logo iria embora, mas o menino era cego e, por isso, não era atingido pelos poderes dos cabelos da mulher. Sendo assim, Lucas passou a ser como um desafio para R e, nessa brincadeira, os dois acabaram se apaixonando, o que se tornou um grande problema para a prostituta, que não deveria se apaixonar. 
"- O maior segredo da Princesa da Lapa, que só as habitantes da Casa dos Prazeres sabem, é que a fonte de tanta paixão e mistério vem dos meus cabelos - eu falei." - Pág. 154.  
A Princesa da Lapa, Danilo Barbosa | Foto: Luiza Lamas
Este foi o meu primeiro contato com Danilo Barbosa, que também escreveu Arma de Vingança pela Universo dos Livros e diversas histórias eróticas. É inegável que o autor tem ótimas referências e muito conhecimento, que faz questão de colocar nas páginas do livro, seja na forma de indicação ou como contexto de uma época ou situação. 

Também gostei bastante de alguns personagens construídos por ele, como o próprio Lucas (que no começo parece ser bem bobo, mas depois se prova ser muito mais inteligente que R) e Kyo, também prostituta e aquela que se torna amiga e protetora de R (Kyo é doce, amigável, sincera e é quem ajuda a menina a se encontrar com Lucas e a mantém longe das garras de Mama Mercedes e o cafetão Brucutu, que bate nas meninas). 

Por outro lado, eu preciso fazer algumas observações sobre a própria R e sobre Jonas, que é quem desencadeia a história principal de A Princesa da Lapa. O drama que ele fez quando percebeu que a namorada não o queria mais foi enoooorme e o primeiro pensamento que ele teve depois de ter levado o fora foi "agora eu preciso sair para pegar várias garotas e provar que sou macho alfa". Na minha cabeça, como leitora, meus pensamentos eram "que cara escroto, quando isso vai passar?".  Já sobre R, a questão é a mesma: o exagero quanto ao fato de que, na opinião dela, o amor não dá certo e é um erro. São parágrafos e parágrafos com argumentos desse tipo e, algumas vezes, fiquei cansada por estar lendo aquilo. 

Acho importante observar que isso que citei no parágrafo acima são características das personagens que não condisseram com o que eu prefiro ou gosto de ler num livro, e não algum problema específico com o autor. 

Isso será abordado aqui, porque, ao longo da leitura, percebi que existem algumas questões chaves na história que Danilo não nos explicou (acho que se eu falasse seria spoiler), o que fez com que o livro tivesse alguns buracos. Quando isso acontece, tenho a impressão de que o autor teve uma boa ideia, mas não capacidade, contexto, pesquisa ou sensibilidade o suficiente para nos explicar porque quis expor aquilo no livro, o que é uma pena e me deixa um pouco incomodada. 

Fora isso, recomendo o livro para quem quer curtir uma história um tanto quanto fora do comum e gosta de passagens calientes que envolvem a trama principal. 


Um beijo e foca na leitura!

1 de julho de 2018

Resenha: Sherlock Holmes - Casos Extraordinários, de Arthur Conan Doyle

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Autor: Arthur Conan Doyle
Editora: FTD
88 Páginas

Sinopse: "Quatro contos em que Sherlock demonstra seus métodos. Em A face amarela, um homem tem dúvidas sobre o comportamento de sua esposa. O ritual Musgrave envolve um mapa do tesouro e estranhos desaparecimentos. A Liga dos Cabeças-Vermelhas trata de uma curiosa organização, que contratava apenas homens ruivos. O diamante azul começa com um ganso roubado... São histórias condensadas e de fácil leitura, permitindo que o jovem leitor  de hoje acompanhe o método de Holmes e o fascínio desse personagem extraordinário." - Marcia Kupstas. Compre o livro aqui.
  

Sherlock Holmes - Casos extraordinários reúne quatro casos solucionados por Sherlock Holmes com ajuda do amigo Dr. Watson: A face amarela, O ritual Musgrave, A Liga dos Cabeças-Vermelhas e O diamante azul. Nesta edição, os contos foram traduzidos e adaptados por Marcia Kupstas. 

A face amarela nos traz um homem que é casado há três anos e se dá muito bem com a mulher, mas ultimamente tem desconfiado das ações dela. A moça anda saindo de madrugada para ir a casa vizinha, que tem um novo inquilino e, apesar das perguntas incessantes do marido sobre o assunto, continua escondendo o fato. 

Em O ritual Musgrave, um dos primeiros casos desvendados por Sherlock, o mordomo da família Musgrave desaparece depois de alguns dias turbulentos na casa e deixa o patrão dele, Reginald, preocupado e desconfiado a ponto de contatar Holmes para resolver e entender o caso. 

Em A Liga dos Cabeças-Vermelhas, Sr. Wilson, homem de cabelos ruivos, procura Holmes para investigar uma organização que só contrata pessoas de cabelo vermelho. Wilson foi convidado a participar dela pelo ajudante da loja em que é dono e conseguiu a vaga, mas a Liga acabou de repente e deixou Sr. Wilson desconfiado das intenções de quem o contratou. 

Por último, em O diamante azul, Sherlock começa as investigações com apenas um ganso e um chapéu velho encontrados por um policial que defendeu um homem na rua (que fugiu e esqueceu os pertences). O detetive começa a traçar toda a personalidade e passos do dono do chapéu apenas observando o objeto e analisando-o. 

Sherlock Holmes - Casos Extraordinários, Arthur Conan Doyle | Foto: Luiza Lamas
Este livro foi meu primeiro contato com o mestre do mistério Sherlock Holmes e com o brilhante amigo dele, Dr. Watson, tão bem desenvolvidos por Arthur Conan Doyle. Antes de ler o livro, eu imaginava que Watson ajudava Holmes nas investigações, mas nem ele é capaz de acompanhar o raciocínio aguçado do detetive. Sendo assim, o papel de Watson passa a ser o de intermediário entre nós, leitores, e Sherlock, além de narrar e escrever as histórias.

Dentre os quatro contos da narrativa, meu preferido foi O diamante azul. Foi o que apresentou mais detalhes e me deu mais vontade de acompanhar os passos da investigação, que me pareceu bastante rica.  Em segundo lugar fico com O ritual Musgrave, que me permitiu descobrir junto com Holmes os segredos da investigação, sem que antes ele já soubesse de tudo. 

Recomendo este livro para quem quer, assim como eu, ter o primeiro contato com Sherlock. Por ser uma obra adaptada, acredito que se tornará mais fácil de entrar nas histórias e se sentir cativada pelos personagens. 

Vocês já leram Sherlock Holmes? E os outros livros do Doyle? Contem nos comentários :)


Um beijo e foca na leitura! 

23 de junho de 2018

Resenha: O Menino da Lista de Schindler, de Leon Leyson, Marilyn J. Harran e Elisabeth B. Leyson

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Autores: Leon Leyson, Marilyn J. Harran e Elisabeth B. Leyson
Editora: Rocco Jovens Leitores
256 Páginas

Sinopse: Um pequeno vilarejo, os irmãos, os amigos, as corridas nos campos, os banhos de rio: essa é a verdadeira história de Leon, a história de um mundo despedaçado pela invasão dos nazistas. Quando em 1939 o exército alemão ocupou a Polônia, Leon tinha apenas dez anos. Logo ele e sua família foram confinados no gueto de Cracóvia junto a milhões de outros judeus. Com um pouco de sorte e muita coragem, o menino conseguiu sobreviver ao inferno e foi contratado para trabalhar na fábrica de Oskar Schindler, o famoso empreendedor que conseguiu salvar mais de mil e duzentos judeus dos campos de concentração. Neste testemunho que ficou por tanto tempo inédito, Leon Leyson nos conta sua extraordinária história, na qual, graças à força de um menino, o impossível se tornou possível. O Menino da Lista de Schindler é um legado de esperança e um chamado para que todos nós nos recordemos daqueles que não tiveram a chance do amanhã. Compre o livro aqui.
O Menino da Lista de Schindler conta a história do menino mais novo salvo por Oskar Schindler, Leon Leyson, no Holocausto. O livro, autobiográfico com uns toques de romance, é uma espécie de linha do tempo que narra a vida dele e da família na Polônia desde antes da ocupação nazista até o momento em que a Alemanha perde a guerra e aos poucos deixa o país. 

Leon é natural de Narewka, uma cidade pequena e rural no leste europeu. Ainda bastante criança, se muda para Cracóvia, graças ao bom emprego do pai na cidade. A família, principalmente a mãe de Leon, fica triste por ter que deixar para trás os outros parentes, como os avós e tios, mas todos entendem que essa é a melhor atitude a ser tomada, já que, com essa oportunidade, o pai, a mãe e os irmãos poderiam ficar juntos de novo. 

O menino se encanta com a cidade grande e com todas as novas aventuras que poderá viver nela. Ele se acostuma de forma muito fácil à nova rotina e rapidamente faz novos amigos, que não se importam com o fato de Leon ser judeu. 
"Por isso, nem mesmo o mais assustador dos contos de fadas poderia ter me preparado para as monstruosidades com as quais eu me depararia poucos anos mais tarde, para todas as vezes em que eu escaparia à morte por um triz ou para o herói disfarçado de monstro que salvaria a minha vida". - Pág. 17.
Conforme o tempo passa, a narrativa nos mostra como o comportamento dos moradores de Cracóvia vai mudando e como a censura afeta os judeus e limita a vida deles na cidade, principalmente após 1939 (ano em que o exército alemão ocupa a Polônia). De forma gradativa, eles são obrigados a sentar no fundo do ônibus, andar do lado da calçada que não seja ocupada por não-judeus, ficam proibidos de ir a escola, as famílias perdem o emprego e etc. É interessante, e ao mesmo tempo triste, acompanhar, nesses momentos, como Leon se sente em cada situação, porque no início, a família dele tinha tudo e, logo depois, nada. 


É no fim de 1939 que passamos a conhecer a forma como Oskar Schindler ajudava os judeus e os mantinha vivos. Ele começa oferecendo ao pai de Leon, Moshe, um emprego na fábrica de esmaltes dele em troca de uma carta que fazia com que a família, que a essa altura já vivia nos guetos, não fosse levada nos carros de gado para os campos de concentração e, em outras palavras, fosse morta. Além disso, de alguma forma, Schindler acompanha a família ao longo de toda a história e a ajuda. 

Oskar era um alemão nazista e, durante o livro todo, principalmente nos momentos em que ele aparecia, eu não conseguia entender qual era o interesse dele em ajudá-los, porque isso simplesmente não entrava na minha cabeça. Por causa disso, fiquei com muita, muita, vontade de ler A Lista de Schindler para entender melhor como foi o processo de "criação" da lista e de como Oskar ia salvar todos. 

Em diversas partes do livro eu queria simplesmente abraçar Leon e tentar dizer ou fazer algo que o confortasse, porque é extremamente triste ler tudo o que ele passou e ter consciência de que aquilo realmente aconteceu (e até de formas piores, como nos campos de concentração de Auschwitz) e não poder fazer nada para mudar. O que senti foi uma sensação de impotência e incredulidade que é difícil de descrever.
"Nossa família falava sobre o futuro ou fazia planos para o caso de a situação piorar? Na verdade, não. Não conseguíamos pensar dois minutos à frente quando toda a nossa energia estava concentrada em chegar ao dia seguinte. Vivíamos sempre o momento, determinados a chegar ilesos ao fim do dia". - Pág. 103.
Outras partes que também me tocaram foram as que Leon relatava sobre a fome que ele e a família sentiam. Acredito que essa seja uma das piores formas de se atingir o ser humano, porque é algo essencial para vida e que todos sentem igual, então é muito desumano e covarde privar alguém de se alimentar. 

Queria destacar aqui também que, além de obter a ajuda de Schindler para sobreviver, Leon contou muito com a ajuda dele mesmo, porque em diversos momentos se arriscou muito, seja indo ver a família escondido ou falando diretamente com soldados alemães. A força, garra e determinação que ele teve são extremamente admiráveis. 

Eu recomendo muito O Menino da Lista de Schindler para todos aqueles que querem ler e conhecer um pouco mais afundo sobre histórias da 2ª Guerra e do Holocausto. Esse tema me atrai muito e apesar de eu conhecê-lo bastante, sempre me surpreende.


Um beijo e foca na leitura!

25 de janeiro de 2018

Resenha: Vidas Muito Boas, de J.K Rowling

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Autora: J. K. Rowling 
Editora: Rocco 
80 Páginas

Sinopse: Quando foi convidada a fazer o discurso de paraninfa na Universidade Harvard, J. K. Rowling escolheu falar à turma de formandos sobre dois temas que lhe são muito caros: os benefícios do fracasso e a importância da imaginação. Ter a coragem de fracassar, disse ela, é tão fundamental para uma vida boa quanto qualquer medida convencional de sucesso; imaginar a si mesmo no lugar do outro - em particular de alguém menos afortunado - é uma virtude exclusivamente humana a ser alimentada a todo custo. 
Desde então, as histórias contadas por Rowling e as perguntas provocadoras que ela fez aos jovens formandos inspiraram incontáveis pessoas a pensar no que significa ter uma "vida boa". Com temas como o fracasso, as dificuldades, a imaginação e a inspiração, este livro é ainda tão relevante hoje como foram suas palavras nove anos atrás. Quando nos atrevemos a assumir um risco, e talvez fracassar, e tiramos proveito do poder de nossa imaginação, podemos todos começar a viver com menos cautela e, assim, tornarmo-nos mais receptivos às oportunidades que a vida tem a nos oferecer. Compre o livro aqui.
Vidas Muito Boas traz a transcrição do discurso que J. K. Rowling fez aos formandos da Universidade Harvard em 2008. Nele, a autora, famosíssima por ter escrito a série Harry Potter, relembra um pouco da juventude dela e traz alguns conselhos e aprendizados valiosos sobre a vida e sobre o ser humano.

Conforme faz relatos de experiências pessoais do trabalho e da época de faculdade, J. K. vai nos ensinar a importância de fracassar, porque, sem os obstáculos do caminho, a gente não aprende nada, já que a graça da vida é descobrir como passar por eles. 
"Talvez vocês já mais fracassem na escala em que fracassei, mas é inevitável ter algum fracasso na vida. É impossível viver sem fracassar em alguma coisa, a não ser que vocês vivam com tanto cuidado que acabem não vivendo de verdade - e, neste caso, vocês fracassam por omissão". - Pág. 34. 
Além disso, a autora também nos alerta sobre nossa responsabilidade a partir do momento em que somos capazes de fazer escolhas a partir de quem somos. Isso quer dizer que podemos escolher entre utilizar os recursos de que dispomos, como o curso que escolhemos para a faculdade, nosso trabalho e nossas experiências para ajudar alguém ou não e simplesmente ignorar esses recursos. 

É aqui que coloca-se em pauta a importância da imaginação, porque, nos imaginando no lugar do outro, podemos ajudar a transformar a realidade dele e fazer acontecer, pelo menos minimamente. 
"Não precisamos de magia para transformar nosso mundo; todos já temos dentro de nós o poder de que precisamos: o poder de imaginar melhor". Pág. 67.
Vidas Muito Boas, J. K. Rowling | Foto: Luiza Lamas
O livro é lindo e, talvez, único. Recomendadíssimo para os fãs de J. K. Rowling que querem conhecer um pouco mais sobre os pensamentos da autora e admirá-la ainda mais. Além disso, a obra é cheia de ilustrações que "brincam" e complementam as frases do discurso. 

Para quem quiser assistir ao discurso no YouTube, aqui está um link de acesso, é só clicar e se emocionar (o vídeo é legendado).  

Um beijo e foca na leitura!

6 de janeiro de 2018

Resenha: Extraordinário, de R. J. Palacio

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Autora: R. J. Palacio
Editora: Intrínseca 
320 Páginas 

Sinopse: August Pullman, o Auggie, nasceu com uma síndrome genética cuja sequela é uma severa deformidade facial, que lhe impôs diversas cirurgias e complicações médicas. Por isso, ele nunca havia frequentado uma escola de verdade... Até agora. Todo mundo sabe que é difícil ser um aluno novo, mais ainda quando se tem um rosto tão diferente. Prestes a começar o quinto ano em um colégio particular de Nova York, Auggie tem uma missão nada fácil pela frente: convencer os colegas de que, apesar da aparência incomum, ele e um menino igual a todos os outros.
R. J. Palacio criou uma historia edificante, repleta de amor e esperança, em que um grupo de pessoas luta para espalhar compaixão, aceitação e gentileza. Narrado da perspectiva de Auggie e também de seus familiares e amigos, com momentos comoventes e outros descontraídos, Extraordinário consegue captar o impacto que um menino pode causar na vida e no comportamento de todos, família, amigos e comunidade - um impacto forte, comovente e, sem duvida nenhuma, extraordinariamente positivo. Compre o livro aqui.
August Pullman tem dez anos e nasceu com uma síndrome genética que afeta o rosto. Mesmo tendo sido submetido à diversas cirurgias para correções, o menino ainda possui uma grave deformidade facial. É por causa disso que ele sempre teve aulas em casa, com a mãe, e nunca foi a escola. Mas isso vai mudar. 

O menino terá que enfrentar o quinto ano e se acostumar com a rotina escolar: professores de verdade, prazos e lições de casa. Mas, isso não é o pior. Ele também vai conviver com pessoas diferentes e sabe que elas vão olhar torto e fazer comentários maldosos. Principalmente as crianças. August não está completamente preparado para isso. 
"A única razão de eu não ser comum é que ninguém além de mim me enxerga dessa forma" - Pág. 11. 
Além de ter o ponto de vista de August, o livro também é narrado pelos familiares e amigos próximos dele, como a irmã, o namorado dela, Jack Will e Summer. São essas pessoas que também vão ajudá-lo superar os dias ruins na escola que às vezes fazem com que ele sinta vontade de desistir. 


Extraordinário, R. J. Palacio | Foto: Luiza Lamas
Umas das características do livro de que gostei muito foi o humor de Auggie. Mesmo com tudo o que enfrenta, ele consegue relevar alguns acontecimentos e levar na brincadeira. Acho que isso foi muito importante para dar uma quebrada na narrativa de vez em quando. 
"- Na verdade, concordo com a minha mãe.  Acho que somos muito novos para namorar. Quer dizer, não entendo por que a pressa. - É, também acho - disse o August. - O que é uma pena, sabe, com todas essas gatinhas se jogando em cima de mim e tudo mais...Ele disse isso de um jeito tão engraçado que o leite que eu estava tomando saiu pelo meu nariz quando ri, o que nos fez cair ainda mais na gargalhada" - Pág. 183/184.
Por fim, Extraordinário é um livro sobre empatia, entrega e gentileza. Empatia porque nos ensina um pouco mais a nos colocarmos no lugar do outro e nos mostra que às vezes a gente acha que está fazendo muito, mas na verdade não está fazendo nada mais do que nossa obrigação como ser humano. Entrega porque descobrimos até que ponto podemos ir quando o que está em jogo é uma amizade. E gentileza, porque ela é bem-vinda e necessária. 
" - "Mais gentil que o necessário" - repetiu. - Que frase maravilhosa, não é? Mais gentil que o necessário. Porque não basta ser gentil. Devemos ser mais gentis do que precisamos. Adoro essa frase, essa ideia, porque ela me lembra que carregamos conosco, como seres humanos, não apenas a capacidade de ser gentil, mas a opção pela gentileza" - Pág. 302.
Um beijo e foca na leitura!