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14 de julho de 2018

Resenha: Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

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Autor: Ray Bradbury
Editora: Editora Globo
216 Páginas

Sinopse: A obra de Bradbury descreve um governo totalitário, num futuro incerto mas próximo, que proíbe qualquer livro ou tipo de leitura, prevendo que o povo possa ficar instruído e se rebelar contra o status quo. Tudo é controlado e as pessoas só têm conhecimento dos fatos por aparelhos de TVs instaladas em suas casas ou em praças ao ar livre. O livro conta a história de Guy Montag, que no início tem prazer com sua profissão de bombeiro, cuja função nessa sociedade imune a incêndios é queimar livros e tudo que diga respeito à leitura. Quando Montag conhece Clarisse McClellan, uma menina de dezesseis anos que reflete sobre o mundo à sua volta e que o instiga a fazer o mesmo, ele percebe o quanto tem sido infeliz no seu relacionamento com a esposa, Mildred. Ele passa a se sentir incomodado com sua profissão e descontente com a autoridade e com os cidadãos. A partir daí, o protagonista tenta mudar a sociedade e encontrar sua felicidade.
Fahrenheit 451 é um clássico da ficção científica escrito em 1953 e descreve o cotidiano de uma sociedade que proíbe o acúmulo e manuseio de livros em casa ou bibliotecas, porque eles trazem angústia e medo, ao invés de serem instrumento de diversão e entretenimento. Nesta organização social, os bombeiros não são mais responsáveis por apagar incêndios, mas provocá-los, queimando coleções de obras de pessoas comuns que são denunciadas ao governo. 

Um destes bombeiros é Guy Montag, marido de Mildred, uma mulher que vive tomando muitos remédios e adora assistir à programas de lazer em três telões instalados na casa deles. O homem gosta muito de queimar livros e os acha inúteis, até o dia em que conhece Clarisse McClellan, sua vizinha de dezesseis anos que frequenta o psiquiatra por adorar conversar e fazer perguntas consideradas inoportunas, como questionar se Montag é feliz ou se ele está apaixonado. 
"Dizem que sou antissocial. Não me misturo. É tão estranho. Na verdade, eu sou muito social. Tudo depende do que você entende por social, não é? Social para mim significa conversar com você sobre coisas como esta. - Ela chocalhou algumas castanhas que haviam caído da árvore do jardim da frente. - Ou falar sobre quanto o mundo é estranho. É agradável estar com as pessoas. Mas não vejo o que há de social em juntar um grupo de pessoas e depois não deixá-las falar, você não acha? Uma hora de aula pela tevê, uma hora jogando basquete ou beisebol ou correndo, outra hora transcrevendo história ou pintando quadros e mais esportes, mas, sabe nunca fazemos perguntas: pelo menos a maioria não faz; eles apenas passam as respostas para você, pim, pim, pim, e nós, sentados ali, assistindo a mais quatro horas de filmes educativos. Isso para mim não é nada social." - Págs. 51/52 
A partir daquele dia, Montag passa a se encontrar regularmente com Clarisse e acompanhá-la de volta para casa. Aos poucos, a menina conquista o bombeiro com seu jeito de ser e pensar e, por causa disso, ele começa a questionar o trabalho que realiza como bombeiro e também o papel que exerce na sociedade. 

As dúvidas de Montag se intensificam quando ele comparece à casa de uma senhora para queimar os livros dela e a idosa prefere morrer junto às obras do que se salvar. Naquele momento, antes de deixar o local, o bombeiro esconde no casaco uns dos livros ao invés de incendiá-lo e, a partir dali, começa a pensar e planejar maneiras de driblar o governo totalitário em que vive. 


Fahrenheit 451, Ray Bradbury | Foto: Luiza Lamas
Uma das características que considerei mais interessante na narrativa de Fahrenheit 451 é que a ambientação dela se passa num planeta comum, numa cidade comum e que a história não precisou de grandes aparatos tecnológicos ou mudanças drásticas e mirabolantes para que fosse futurística. A graça da narrativa é perceber que o que mudou foi o comportamento das pessoas, cada vez mais inseridas na dinâmica da sociedade de massa, da indústria cultural e do consumo, uma forma de totalitarismo sutil. 

"Lembre-se, os bombeiros raramente são necessários. O próprio público deixou de ler por decisão própria. Vocês, bombeiros, de vez em quando garantem um circo em volta do qual multidões se juntam para ver a bela chama de prédios incendiados, mas, na verdade, é um espetáculo secundário, e dificilmente necessário para manter a ordem. São muito poucos os que ainda querem ser rebeldes." - Pág. 114/115. 

Há, inclusive, uma passagem no livro que nos mostra que a ambientação da história se passa mais ou menos no nosso presente, pois um personagem comenta: "Desde 1990, já fizemos e vencemos duas guerras atômicas!". Achei assustador perceber como algumas das ações dos personagens se parecem tanto com o que vivemos hoje. Por exemplo, estar sempre conectado. Atualmente, fazemos uso de computadores, celulares e diversos outros dispositivos móveis. Em Fahrenheit 451, quem têm esse papel são a televisão, que fica ligada praticamente 24h (é a que comentei que a esposa de Montag adora assistir) e escutas nos ouvidos, que recriam realidades melhoradas e mais felizes. 
"Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com 'fatos' que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente 'brilhantes' quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia." - Pág. 86/87. 
Me distanciando um pouco da estrutura, a personagem que mais me cativou foi Clarisse. Acho que o autor a construiu de uma forma muito simples, mas ela influencia os pensamentos e decisões de Guy Montag até o fim. Assim como a menina deixou uma marca no bombeiro, ela também deixa em nós, leitores. Às, vezes, eu queria pegá-la e guardá-la num potinho por ser tão inteligente. 

Também posso acrescentar que a narrativa não é arrastada. O autor nos apresenta o conflito e já se preocupa em resolvê-lo, o que foi um ponto muito positivo para mim (quero dizer que Montag não perde tempo sofrendo por causa da realidade em que vive, mas assim que a descobre, já passa a buscar soluções para transformá-la ou, no mínimo, deixar uma marca). 

Por fim, queria deixar registrado que há uma adaptação da obra para o cinema filmada em 1966 por François Truffaut. Vejam o trailer legendado abaixo:


E também outra adaptação, lançada pela HBO em maio deste ano, estrelada por Michael B. Jordan. Vejam o trailer legendado: 


Eu ainda não assisti nenhuma das duas versões, vocês já? 

Um beijo e foca na leitura!

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