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18 de dezembro de 2017

Resenha: a cor do leite

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Autora: Nell Leyshon 
Editora: Bertrand Brasil
208 Páginas

Sinopse: O ano é 1831 quando Mary, uma menina de 15 anos, decide escrever a sua história. Ela tem a língua afiada, cabelos da cor do leite, tão brancos quanto sua pele, e leva uma vida dura, trabalhando com suas três irmãs na fazenda da família. Seu pai é um homem severo, que se importa somente com o lucro das plantações e joga sobre as quatro filhas a culpa por não terem nascido homens, para que pudessem ajudá-lo nos trabalhos mais pesados. Com Mary, ele é ainda mais cruel. No verão, ela é enviada ao presbitério, onde sua função será cuidar da esposa do pastor, uma mulher de saúde frágil. Mary não se sentirá confortável na nova casa - um mundo desconhecido, completamente diferente da realidade a que sempre esteve acostumada. Sua vontade é voltar para casa e para seu melhor amigo, o avô inválido e divertido. Mas a esposa do pastor gosta de Mary e a considera uma companhia agradável. Uma menina simples e analfabeta, mas forte e decidida. Mary não tem escolha: nunca teve. Não escolheu ir para aquela casa e também não pode escolher a hora de ir embora. Decorrido um ano, ela aprende a ler e a escrever, e agora tem urgência em narrar a sua história. Mas o tempo é escasso, e tudo o que lhe importa é contar os motivos de suas atitudes. Aos poucos, por meio de seu relato, ela revelará toda a sua força ao lutar contra o que lhe parece irremediável. Compre o livro aqui.

Eu não tinha muita certeza se eu ia fazer essa resenha, porque quando o livro é bom demais e eu sinto vontade de escrever sobre ele, tenho a impressão de que sempre vou esquecer algo que é muito importante ou que não vou saber transmitir a mensagem que ele passa e nem fazer com que as pessoas tenham vontade de lê-lo. Mas vamos lá, eu vou tentar.  

Mary tem 15 anos e trabalha na fazenda da família junto com o pai e mais três irmãs. Ela faz de tudo: tira leite da vaca, cuida das ovelhas, corta a grama, tira a água do poço, tudo... Mas mesmo assim, o pai dela (na trama ele não tem nome, somente "papai", então talvez a palavra fique repetitiva) gosta de lembrar que ela não é um homem e nunca vai ser um e trabalhar como um. Ele é arrogante e desconta todo o rancor que sente nas meninas, maltratando-as, batendo nelas e também lembrando Mary de que ela tem uma perna ruim que só a atrapalha. 
"faz ele parar com isso, eu gritei pra mamãe. não, a mamãe respondeu. de quem é essa fazenda? quem é o homem aqui?" - Pág. 29. 
No verão, o pai da menina decide que Mary tem que ir morar no presbitério, porque a esposa do pastor está doente e precisa de alguém para ajudar nos cuidados da casa e dela mesma. Mary vai contra a vontade, afinal, ela nunca teve escolha. Mesmo assim, não se deixa calar. Vira e mexe ela dá um jeito de falar para o pastor e para o pai que não queria estar ali e que deseja voltar para casa.

Além disso, a menina também nunca vê o dinheiro que é fruto da força de trabalho dela; a quantia é repassada diretamente para as mãos do pai. 

a cor do leite, Nell Leyshon | Foto: Luiza Lamas 
O livro é narrado em primeira pessoa o tempo todo, na palavra de Mary. Essa parte é importante e aqui a autora ganhou muitos pontos comigo, porque Mary é uma adolescente recém alfabetizada e, por conta disso, a narrativa tem muitos erros de concordância; também não faz uso de maiúsculas e minúsculas e nem de pontuação. Isso tudo para que entremos na cabeça e na vivência da personagem. E a tática funciona. 

A justificativa que Mary usa para escrever a história é que precisa contar tudo o que vivenciou desde 1830 até o momento presente da narrativa (que é 1831, quando ela começa a escrever). O objetivo é que o leitor entenda tudo o que a menina passou e consiga compreender o que ela fez e porquê fez. 

Sendo assim, Mary faz algumas pausas ao longo da história para dizer como se sente no tempo presente, o que nos instiga a continuar a ler. A menina lembra que é ela que está escrevendo o relato (com as próprias mãos) e diz que tem que ir rápido porque tem pouco tempo. Nestes momentos eu ficava me perguntando "Por que raios ela tem que ir rápido? O que está acontecendo?". 
"às vezes é bom ter lembranças porque elas são a história da nossa vida e sem elas não ia ter nada. mas tem vezes que a memória guarda coisas que a gente não quer nunca mais ouvir falar e não importa quanto a gente tenta tirar elas da cabeça. elas voltam" - Pág.163.
O livro é muito denso e ao mesmo tempo bonito, porque a força de Mary é muito inspiradora. Também achei interessante perceber, depois de finalizar o livro, como a narrativa nos dá algumas pistas do que está por vir e realmente nós só paramos para pensar nelas depois que terminamos a história. 

Recomendo o livro para todos e posso dizer que essa foi a minha melhor leitura de 2017 até o momento (eu sei que eu li poucos livros, mas fiquei extremamente grata e satisfeita por a cor do leite ter aparecido entre os meus lidos). 

Um beijo e foca na leitura! 
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