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18 de maio de 2016

Uma Conversa

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Eu só queria pegar o transporte para ir trabalhar mas, para variar, estava atrasada. Pela segunda vez, eu tinha esquecido a carteira. Voltei para o prédio e fiz todo o caminho inverso: chamei o elevador, entrei, subi, abri a casa. A maldita estava em cima da mesa. A essa altura, já tinha perdido o primeiro ônibus. O segundo só passaria dali a vinte minutos, tempo que eu não podia perder. Por que esses ônibus demoram tanto para passar?

Quando finalmente cheguei ao ponto, vi uma criança sentada comendo chocolate ao lado da mãe. Ela parecia estar passando frio, porque estava sem blusa e o vento era muito forte; apesar disso, acho que estava feliz. Sentei ao lado dela, embora eu estivesse mal-humorada e sem vontade de puxar assunto. Depois de uns minutos, a mãe dela anunciou que ia comprar uma água e pediu que ela esperasse ali, sentada. Quando a mãe finalmente saiu, ela olhou para mim e disse:

“Quer? Minha mãe fala que é bom para acordar, que a cafeína ajuda”.

“Não”, eu respondi, seca.

“Você está bem? Parece que está chateada com algo”. Ela parecia ler meus pensamentos. “Come o chocolate, vai fazer bem”. Ela sorriu e depois acrescentou: “mas não deixa mamãe saber, porque não é sempre que ela tem dinheiro para comprar um para mim. Ela trabalha muito, e meus irmãos também, mas a gente só consegue o básico. Acho que isso aconteceu depois que a vovó foi para o hospital. Ela precisa de tratamento e o convênio não cobre, então a gente tem que tirar do nosso bolso. Também tentamos o hospital público, mas não tem vaga. Mamãe faria tudo pela vovó Nanda”.

De súbito, eu me senti muito mal. A criança retratava momentos complicados que estava vivendo, mas mesmo assim enfrentava tudo com leveza. Meus problemas eram muito menores do que aqueles e eu os transformava em tempestade em copo d’água. Ainda assim, perguntei:

“Como você se sente?”.

“Não fico triste. Vovó vai sair dessa. O pior é ver minha mãe chorar às vezes, mas depois eu converso com ela e a gente brinca, então ela se anima de novo”.

Quando ela terminou de falar, percebi que meu ônibus estava chegando.

“Você vai ficar bem aí?” .

Ela fez que sim com a cabeça. Desejei que sua avó melhorasse e afirmei que tudo ia ficar bem sim. Também prometi para mim que ia relaxar e seguir. Nós nunca sabemos exatamente o que se passa com o outro e com qual intensidade. Não é justo que julguemos as ações deles com nossas experiências. Então, não seria justo que eu julgasse e transformasse as atitudes dos outros em problemas meus, porque todo mundo, todos os dias, faz escolhas. Naquele momento, eu tinha escolhido ter força de vontade e começar de novo. 



Texto publicado pela primeira vez em 18/05/16 e atualizado em 16/05/17.
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